Franquia ou negócio próprio: o que pesa na decisão antes do fim do ano
Por Rafael Vivian Gmeiner · Publicado em 04/11/2026 às 19h36
Com juros ainda altos, reforma tributária batendo à porta e uma nova jornada de trabalho entrando em vigor em dezembro, o investidor que pretende empreender em 2027 precisa olhar para muito além do valor da taxa inicial ou do sonho de ter a própria marca
O último trimestre do ano costuma concentrar decisões de quem tem capital parado e vontade de colocar o dinheiro para trabalhar em um negócio, seja porque o 13º salário, a participação nos lucros ou o resgate de uma aplicação reforçam o caixa, seja porque a virada do calendário parece o momento natural para começar algo novo, e em 2026 essa escolha entre comprar uma franquia ou abrir um negócio do zero ganhou camadas extras de complexidade que merecem atenção antes de qualquer assinatura.
O custo de oportunidade do dinheiro
O primeiro filtro de qualquer investidor é comparar o retorno esperado do negócio com o que o capital renderia sem risco operacional, e esse patamar continua elevado, já que a Selic está em 13,75% ao ano desde setembro, após uma sequência de cortes graduais ao longo de 2026, com o Copom anunciando nesta quarta-feira, 4 de novembro, uma nova decisão e o mercado projetando, segundo o boletim Focus, uma queda lenta até algo próximo de 12% ao longo de 2027. Na prática, isso significa que um empreendimento só faz sentido se entregar um retorno claramente superior ao de um título pós-fixado, compensando o trabalho, o risco e o tempo até o ponto de equilíbrio, e essa conta deve ser feita com a mesma frieza tanto para uma unidade franqueada quanto para uma marca própria.
Risco e previsibilidade
É nesse ponto que o modelo de franquias costuma levar vantagem, porque o investidor compra um formato já testado, com fornecedores negociados, processos padronizados, marca reconhecida e suporte de implantação, o que ajuda a explicar por que os levantamentos mais citados pelo setor, com base em dados da ABF e do Sebrae, apontam uma mortalidade em torno de 5% nos dois primeiros anos entre unidades franqueadas, contra cerca de 23% entre pequenas empresas independentes no mesmo período. O número, no entanto, é uma média de mercado e não uma garantia, e redes com expansão acelerada demais, pouca estrutura de suporte ou unidades com margens apertadas podem apresentar resultados bem diferentes, razão pela qual a análise precisa ser feita marca a marca.
O próprio setor tem reforçado esse alerta, e durante a ABF CON 2026, realizada no fim de outubro em Comandatuba, na Bahia, o presidente da ABF, Tom Moreira Leite, apontou como um dos equívocos do franchising “considerar o número de contratos assinados como sinônimo de sucesso”, sugerindo que o crescimento real de uma rede seja medido pela lucratividade dos franqueados, pela evolução das vendas das unidades já existentes e pelo número de transações, três indicadores que o investidor pode e deve pedir à franqueadora antes de fechar negócio.
Liberdade, custo fixo e margem
Do outro lado da balança está a autonomia, já que quem abre um negócio próprio decide sozinho sobre cardápio, mix de produtos, preços, fornecedores e identidade visual, não paga taxa de franquia nem royalties e fica com toda a margem gerada, mas também assume sozinho a curva de aprendizado, os erros de ponto comercial e o tempo necessário para construir uma marca do zero, um período que costuma consumir caixa antes de gerar resultado. Na franquia, a lógica se inverte, porque o investidor paga pelo atalho, aceita regras de operação e de compra definidas pela rede e precisa considerar royalties, fundo de propaganda e eventuais taxas de tecnologia como custos fixos que incidem sobre o faturamento, o que torna indispensável simular a margem líquida real de uma unidade média e não apenas a de uma loja modelo.
O que muda em 2027 e pesa na conta
Três mudanças de calendário tornam a decisão deste fim de ano diferente das anteriores. A primeira é a reforma tributária, com a CBS entrando em vigor em 2027 e o Tribunal de Contas da União tendo aprovado em outubro uma alíquota de referência de 11,3%, ainda pendente de fixação pelo Senado até 15 de dezembro, o que pode mudar a formação de preços em toda a cadeia e exige que o investidor pergunte à franqueadora, ou ao seu contador, no caso de um negócio independente, como os novos tributos sobre royalties e insumos foram considerados nas projeções.
A segunda é trabalhista, já que a redução da jornada passa a valer em 15 de dezembro e um estudo encomendado pela ABF em parceria com o Sebrae e o IBESC estima que a adoção irrestrita da escala 5×2 pode elevar em cerca de 20% os custos com folha de pagamento, impacto que pesa mais em operações de alimentação e em negócios que abrem todos os dias, setores em que, como lembrou Tom Moreira Leite em entrevista ao jornal O Povo, “você tem majoritariamente mão de obra como principal custo do seu DRE”. Para o investidor, isso significa refazer a conta de equipe mínima e de horário de funcionamento antes de escolher o segmento, e verificar se a rede já revisou seus modelos de escala.
A terceira mudança é a janela do Simples Nacional, que neste ano foi antecipada para setembro em razão da reforma, mas com uma regra própria para quem abrir CNPJ entre 1º de outubro e 31 de dezembro de 2026, caso em que a opção feita na inscrição da empresa vale para o restante deste ano e para todo o exercício de 2027, o que dá a quem formalizar o negócio ainda em 2026 uma previsibilidade tributária bem-vinda num momento de transição. Vale lembrar que a grande maioria das unidades franqueadas do país está no Simples, e que o teto do MEI foi ampliado recentemente para até R$ 140 mil, o que amplia o leque de microfranquias e pequenos negócios que cabem no regime mais enxuto.
Timing de abertura e sazonalidade
Há também uma questão prática de calendário, porque assinar um contrato em novembro raramente significa inaugurar a tempo do Natal, já que escolha de ponto, obra, treinamento e licenças costumam levar de alguns meses a mais de meio ano, dependendo do formato, e isso faz com que muitas unidades abertas a partir de uma decisão tomada agora estreiem no primeiro trimestre de 2027, período tradicionalmente mais fraco para o varejo e marcado por despesas sazonais das famílias, o que exige um capital de giro mais robusto para atravessar os primeiros meses. Para quem pretende abrir um negócio próprio, o raciocínio é o mesmo, com o agravante de não contar com o histórico de sazonalidade de uma rede para planejar estoque e equipe.
O roteiro mínimo antes de decidir
Independentemente do caminho escolhido, algumas etapas reduzem bastante o risco, e no caso da franquia a principal delas é a Circular de Oferta de Franquia, documento que a Lei 13.966/2019 obriga a franqueadora a entregar com pelo menos dez dias de antecedência da assinatura do contrato ou de qualquer pagamento, e que traz informações como balanços, investimento estimado, taxas, relação de franqueados ativos e dos que deixaram a rede nos últimos dois anos, lista que deve ser usada para conversar diretamente com quem já opera a marca e com quem saiu dela. Pedir a demonstração de resultado de unidades reais, comparar o prazo de retorno prometido com o de outras redes do mesmo segmento, verificar se a marca é associada à ABF e checar o suporte oferecido no dia a dia completam a lista.
No negócio próprio, o roteiro passa por um plano de negócios com projeção conservadora de faturamento, estudo do ponto e da concorrência local, reserva de capital de giro para pelo menos os primeiros meses sem lucro e apoio de um contador desde a escolha do regime tributário, especialmente num ano de transição como 2027.
Perfil do investidor decide o modelo
No fim das contas, a escolha depende menos de qual modelo é melhor em tese e mais de quem está investindo, porque a franquia tende a fazer mais sentido para quem valoriza previsibilidade, aceita seguir regras e quer encurtar a curva de aprendizado, inclusive como investidor que pretende contratar um gestor para operar a unidade, enquanto o negócio próprio combina mais com quem tem experiência no setor, ideia diferenciada, tolerância maior ao risco e disposição para construir uma marca ao longo de anos. Em qualquer um dos casos, o fim de 2026 pede uma decisão tomada com números na mesa, considerando juros, impostos, folha de pagamento e tempo até o retorno, e não apenas o entusiasmo de começar o ano com um negócio novo.
Com 45 anos, é jornalista, especialista em Produção de Conteúdo. É CEO e fundador da Agência VitalCom, editor e fundador do site Mundo das Franquias; e editor e co-fundador do site Educação & tendências. Há mais de 25 anos atuando com Jornalismo e Comunicação, conta sua experiência com passagens por jornais impressos, televisão, rádio e sites, mas se estabeleceu com mais propriedade na Assessoria de Imprensa, onde já acumula 14 anos de vivência. Além disso, é produtor de conteúdo, em especial para o ambiente online, que requer técnicas de SEO, otimização de textos para melhor posicionamento nos buscadores.
Ver todas as matérias de Rafael Vivian Gmeiner →