O que a ABF CON 2026 sinalizou para o franchising em 2027

O que a ABF CON 2026 sinalizou para o franchising em 2027

Por Rafael Vivian Gmeiner · Publicado em 04/11/2026 às 19h28

Reunido em Comandatuba, o setor de franquias saiu da 24ª convenção da ABF com uma agenda clara para o próximo ano, que combina pressão por previsibilidade tributária, adaptação à nova jornada de trabalho, troca de comando na entidade e uma defesa insistente do crescimento com rentabilidade

A Ilha de Comandatuba, em Una, no litoral sul da Bahia, recebeu entre 28 de outubro e 1º de novembro a ABF CON 2026, 24ª edição da convenção anual da Associação Brasileira de Franchising, e o encontro, tradicionalmente dedicado a conexões e celebração, acabou funcionando como um termômetro do que franqueadores e franqueados esperam enfrentar em 2027, ano que deve marcar a entrada efetiva da reforma tributária, a adaptação das operações ao fim da escala 6×1 e o início de uma nova gestão à frente da entidade.

O ponto de partida é um setor em boa forma, já que, segundo dados apresentados durante a convenção e reportados pela imprensa, o franchising faturou R$ 301,7 bilhões em 2025, alta de 10,5% sobre o ano anterior, e cresceu 9,7% no primeiro semestre de 2026 na comparação anual, com cerca de 202 mil operações espalhadas por mais de 3.800 municípios, aproximadamente 1,8 milhão de empregos diretos e participação equivalente a 2,3% do PIB. Em seu último discurso de abertura como presidente da ABF, Tom Moreira Leite, CEO do Grupo Trigo, atualizou esse retrato ao afirmar que o setor já ultrapassou R$ 315 bilhões em faturamento e reúne mais de 207 mil operações, e atribuiu o resultado aos empreendedores que fazem as redes funcionarem: “O crescimento do Franchising é uma construção de milhares de empresários e suas equipes”.

Reforma tributária no centro da preocupação

Se o desempenho recente anima, o calendário de 2027 preocupa, e a reforma tributária foi o tema que mais apareceu nos debates e na coletiva de imprensa realizada durante o evento. A CBS, contribuição federal que substitui PIS e Cofins, começa a valer no próximo ano, e no mesmo dia da abertura da convenção o Tribunal de Contas da União aprovou uma alíquota de referência de 11,3% para 2027, número que ainda depende de fixação pelo Senado até 15 de dezembro, o que pesa especialmente sobre franqueadoras do Lucro Presumido, que hoje recolhem PIS e Cofins combinados de 3,65%. A ABF também alerta para a incidência dos novos tributos sobre os royalties pagos pelo uso da marca e para a assimetria no aproveitamento de créditos entre franqueadoras no regime regular e franqueados que permanecem no Simples Nacional, situação de 94% das unidades do país.

Tom Moreira Leite relatou que as redes ainda têm dificuldade para projetar a formação de preços líquidos enquanto as alíquotas não estão definidas, e a entidade estuda modelos que combinam o Simples Nacional e o chamado Simples Híbrido, a depender do perfil de cada negócio, além de defender uma solução técnica que preserve a neutralidade tributária do modelo de franquias, sem pedir benefício fiscal direto, e de cobrar atenção aos efeitos do split payment sobre o caixa dos pequenos empreendedores. A sensação de urgência apareceu também entre os participantes do painel sobre o tema, e o consultor Renato Claro, da Kick Off Consultores Associados, comentou a nova alíquota divulgada dias antes dizendo que “é fundamental acompanhar as atualizações, entender o que está acontecendo”.

Simples Nacional na pauta com o governo federal

A ABF aproveitou a convenção para apresentar a agenda que levará ao governo federal no novo mandato, e a primeira prioridade é a correção automática e anual dos limites de faturamento do Simples Nacional por um índice oficial de inflação, como IPCA ou INPC, para MEI, microempresas e empresas de pequeno porte, de modo que reajustes de preço sem ganho real não empurrem pequenos negócios para regimes mais caros. A entidade pede ainda a simplificação das obrigações acessórias durante a transição tributária, uma demanda que ganha peso num setor em que 88% das empresas são de pequeno porte.

Jornada de trabalho e custo da mão de obra

O segundo grande eixo é trabalhista, porque a redução da jornada entra em vigor em 15 de dezembro e um estudo encomendado pela ABF em parceria com o Sebrae e o IBESC estima que a adoção irrestrita da escala 5×2 pode elevar em cerca de 20% os custos com folha de pagamento, com impacto maior em operações de alimentação e em outros negócios que funcionam todos os dias da semana. Para Tom Moreira Leite, o tema deve ser tratado a partir dos impactos econômicos e não como disputa ideológica, e a resposta defendida pela entidade passa pela desoneração permanente da folha, pela valorização das convenções coletivas e por incentivos à contratação de jovens, já que 17% dos trabalhadores do franchising estão na primeira experiência profissional formal. “A desoneração de folha e o incentivo ao primeiro emprego são bandeiras”, afirmou o presidente à Gazeta do Povo, lembrando em entrevista ao O Povo que nesse tipo de operação “você tem majoritariamente mão de obra como principal custo do seu DRE”.

Vice-presidente da ABF e CEO do CNA, Décio Pecin ampliou o diagnóstico ao tratar a mudança de escala como parte de um movimento maior, que reúne a transformação do comportamento da sociedade, a digitalização dos negócios, o avanço da automação e da inteligência artificial e a convivência de cinco gerações dentro das empresas, e classificou o debate sobre 6×1 e 5×2, segundo o Seu Dinheiro, como “a ponta do iceberg do quanto nós […] precisamos nos adaptar aos dias de hoje”, papel em que ele vê o franqueador como peça central para orientar os pequenos empreendedores da rede.

Nova gestão na ABF a partir de janeiro

Pecin assume a presidência da ABF em janeiro de 2027, sucedendo Tom Moreira Leite, que passa a contribuir com a entidade como membro do Conselho, enquanto Cristina Franco encerra mais de 20 anos de atuação no colegiado e transmite a presidência do Conselho ao ex-presidente da associação Altino Cristofoletti. A expectativa é de continuidade na interlocução com o Executivo e o Legislativo, e Pecin já sinalizou que a falta de clareza sobre as alíquotas tende a deixar empresários e famílias mais cautelosos, o que reduz o ritmo da economia. O próximo ano terá ainda peso simbólico, já que a ABF completa 40 anos e São Paulo receberá a Assembleia do World Franchise Council durante a ABF Franchising Week, com a ABF Franchising Expo marcada para 30 de junho a 3 de julho.

Crescer com rentabilidade, e não com contratos

Fora da pauta regulatória, o recado mais repetido em Comandatuba foi o de que expansão sem saúde financeira da base não se sustenta, e no Pinga-Fogo, mediado pela diretora-executiva da ABF, Carol Graciani, Tom Moreira Leite apontou como um dos equívocos do setor “considerar o número de contratos assinados como sinônimo de sucesso”, propondo três indicadores para medir o crescimento real de uma rede, que são a lucratividade dos franqueados, a evolução das vendas das unidades já existentes e o número de transações. No mesmo painel, José Semenzato, da SMZTO, contou ter encerrado a Casa X, rede de festas infantis criada em parceria com Xuxa, para evitar que franqueados se endividassem, e defendeu que a saúde emocional do empreendedor merece a mesma atenção dada à saúde financeira da empresa.

A mesma lógica orientou as Rodas Vivas e os painéis paralelos do segundo dia, que trataram de novas fontes de receita, consultoria de campo, gestão financeira e inadimplência das unidades, vendas por delivery, marketing local, franqueados multiunidades e o público 50+ como nova fronteira de consumo, temas que indicam onde as redes devem concentrar esforços no próximo ano. No setor de alimentação, Tom destacou a procura crescente por proteínas, a valorização da qualidade e a necessidade de equilibrar salão, retirada e delivery para preservar margens, enquanto a inteligência artificial foi apontada pelos debatedores como um campo amplo de oportunidades para as redes.

Inovação que nasce na unidade e marcas brasileiras lá fora

As premiações reforçaram duas tendências que devem ganhar força em 2027, já que o Prêmio Franqueado do Ano foi para José Adolfo da Silva Junior, da Casa do Construtor, que desenvolveu um sistema próprio de ponto de venda depois adotado por 280 lojas da rede, com crescimento de 18,1% no faturamento de suas unidades entre janeiro e julho de 2026, e o prêmio de Internacionalização reconheceu Corpo Bueno, HOPE Lingerie e Espaçolaser por suas estratégias em mercados externos. A multifranqueada Sedy Novais, das redes CNA e Maple Bear, tornou-se a primeira franqueada escolhida Personalidade do Franchising e a entrar para o Hall da Fama, um sinal do peso crescente dos operadores multiunidades dentro do sistema.

O que fica para 2027

Somados, os debates desenham um 2027 em que o franchising deve seguir crescendo, mas com margens mais pressionadas por impostos e folha de pagamento, o que torna eficiência operacional, gestão de caixa, uso inteligente de dados e uma relação mais próxima entre franqueador e franqueado os principais diferenciais competitivos, e quem pretende investir em uma franquia no próximo ano encontra na ABF CON um bom roteiro de perguntas a fazer antes de assinar o contrato, a começar pela rentabilidade real das unidades que já estão em operação.

Rafael Vivian Gmeiner
Rafael Vivian Gmeiner

Com 45 anos, é jornalista, especialista em Produção de Conteúdo. É CEO e fundador da Agência VitalCom, editor e fundador do site Mundo das Franquias; e editor e co-fundador do site Educação & tendências. Há mais de 25 anos atuando com Jornalismo e Comunicação, conta sua experiência com passagens por jornais impressos, televisão, rádio e sites, mas se estabeleceu com mais propriedade na Assessoria de Imprensa, onde já acumula 14 anos de vivência. Além disso, é produtor de conteúdo, em especial para o ambiente online, que requer técnicas de SEO, otimização de textos para melhor posicionamento nos buscadores.

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